A importância da norma culta

É muito importante que você saiba o momento certo de se comunicar através de palavras mais coloquiais, assim como também é importante saber o momento certo de utilizar termos técnicos da língua portuguesa – mais conhecidos como a norma culta. Caso contrário, você pode terminar o dia levando um tapa do Félix bem na sua cara.

Foi o caso do meu amigo Pedro, que não sabia o momento certo de utilizar a norma culta nem se a sua vida dependesse disso. Por isso, o Capitão Félix, da Polícia Militar, teve que ensinar uma lição não muito gostosa, mas extremamente didática, para o meu nobre amigo coloquial aprender a se portar.

A lição se chamava “Fala direito comigo, moleque” e não terminou nada bem. Pedro estava me dando uma carona para casa, quando fomos abordados por uma blitz da Lei Seca.

Nós estávamos tranquilos, pois havíamos passado a madrugada inteira jogando Guitar Hero. O máximo que um policial poderia extrair de nós seria o cheiro característico de um fedorento Fandangos, mas não teve jeito. Mesmo com a nossa feição tão ameaçadora quanto a de um analista de TI, fomos parados e orientados a descer do veículo. O que Pedro e eu não sabíamos é que uma aula sobre a norma culta da língua portuguesa estava prestes a começar.

O Capitão Félix caminha em nossa direção e para em frente ao meu amigo.

– O Senhor está embriagado? – pergunta o Capitão.

– Eu tô de boa. Estávamos…

Meu amigo é interrompido no meio da frase. Depois do “tô de boa” – algo que eu considerei muito corajoso por parte do meu amigo -, Pedro conheceu o módulo 1 sobre a norma culta da língua portuguesa, muito bem executado pelos punhos do Capitão Félix. Ele é um ótimo professor.

– Fala direito comigo, MOLEQUE! Você acha que eu tô aqui de brincadeira? – responde o professor, demonstrando sua total falta de senso de humor.

O professor não precisou falar mais nada. Bastou a ação imediata que meu amigo Pedro, compreensivelmente assustado, entendeu que, naquele momento, não era uma boa ideia fazer uso de termos coloquiais ou gírias para conversar com uma autoridade. Diante daquela situação, era preciso utilizar termos técnicos – ou mais conhecidos como a norma culta da língua portuguesa.

– Desculpe, senhor. Eu não consumi nenhum líquido com teor alcoólico nesta noite. Estou apto para comprovar minhas condições para conduzir um veículo movido a automotor através do instrumento bafômetro, se assim o senhor desejar. – respondeu meu amigo, exalando a confiança de um garoto de dez anos.

Imediatamente, o professor percebe que está na hora de iniciar o módulo 2 sobre a norma culta da língua portuguesa e dispara outro tapa – ainda mais forte – no rosto do meu querido amigo inocente.

Sem entender nada, Pedro e eu nos entreolhamos, e, após alguns segundos de completo silêncio, o professor complementa:

– É, agora você forçou a barra, amigão…

Ela

Ela me faz feliz de toda maneira,

Me faz refletir sobre questões sérias,

E também rir de qualquer besteira.

Ela é a luz na minha escuridão,

E brega que sou,

Tento rimar,

Em vão…

Pois quanto mais eu penso nela,

Mais eu quero amar.

Ela é tão doce, tão leve, tão fácil,

Parece que nunca teve o coração partido,

– que lindo!

Eu só quero ela aqui comigo.

Namoradas

Marcelo cometeu um erro durante o seu primeiro namoro, há alguns anos atrás. Ele e sua namorada estavam a caminho de um restaurante para comemorar o primeiro ano de namoro. O problema foi que, durante o trajeto, um carro branco, igual ao de uma ex-namorada de Marcelo, buzinou ao lado do carro dele, no momento em que paravam no farol. Não restaram dúvidas: era Clotilde, ex-paixão da vida de Marcelo, motivo de um ciúmes quase mortal por parte de Luana – sua atual namorada.

Marcelo ficou sem saber o que fazer.

– Lelo! – ela o chamava de “Lelo”. – É você? Meu Deus! Quanto tempo! Que saudade de você! Como você está? – gritava Clotilde, sorridente, acenando para Marcelo.

Ele não teve escapatória.

– Clotilde! – respondeu, inseguro sobre a reação da namorada, mas sem querer ser deselegante com a garota. – Quanto tempo não nos vemos…

A conversa durou apenas o tempo do semáforo abrir e o suficiente para estragar a noite do casal. Luana ficou vermelha de ciúmes. Não quis papo com Marcelo. O jantar, que deveria celebrar o primeiro ano de namoro do casal, se transformou em uma sabatina de perguntas sobre Clotilde e do por que Marcelo ter sido tão educado e atencioso com a garota. Segundo Luana, “ex tem que ser ignorada em qualquer situação.”

O namoro não durou muito, mas Marcelo levou essa lição para vida. E o bom de já ter namorado é que os erros do primeiro relacionamento servem como experiência para o próximo. Hoje, Marcelo é um homem mais vivido, confiante, maduro. Está preparado para lidar com as mais diversas situações, principalmente no que diz respeito ao ciúmes das namoradas.

Resolveu ir ao cinema com Patrícia, sua atual namorada. O problema foi que, durante o trajeto, um carro vermelho, igual ao de Luana, buzinou ao lado do carro dele, no momento em que paravam no farol. Não restaram dúvidas: era Luana, ex-namorada de Marcelo, motivo de um ciúmes quase mortal por parte de Patrícia, sua nova paixão.

Dessa vez, Marcelo soube o que fazer.

– Má! – ela o chamava de “Má”. – É você? Meu Deus! Quanto tempo! Que saudade de você! Como você está? – gritava Luana, sorridente, acenando para Marcelo.

Triunfante, Marcelo ignora a ex, fecha o vidro e acelera o carro, deixando o passado para trás. Em um ato de puro romantismo, certo de que fez o certo, Marcelo, sorridente, se vira em direção à Patrícia, como quem pede um beijo.

Patrícia não se contém:
– Porra, Marcelo! Qual que é a sua? Ignorou ela por que? O que é que você está escondendo de mim?

Vai, Clóvis, vai

Tenho um amigo que está passando por um problema amoroso, típico de quem está apaixonado e não consegue tomar nenhuma atitude que envolva a razão. Como de costume, nesses casos, resgato toda minha vivência e experiência em relacionamentos passados e explico, tim-tim por tim-tim, o porquê dele não poder tomar certas atitudes. Por fim, desenvolvo um raciocínio esclarecedor sobre as mais diversas consequências que ele terá caso implore pra voltar com a namorada. Não tem jeito: é como conversar com uma porta.

Meu amigo faz exatamente aquilo que o proíbo de fazer. Escreve cartas, manda flores, compra viagens românticas para o Congo. Mas, por se tratar do primeiro relacionamento dele, eu fico bravo, mas entendo, porque sei que todos nós caímos nessas armadilhas e ilusões na primeira vez. Entretanto, por se tratar de uma pessoa real, não poderei revelar seu verdadeiro nome. Por isso, irei chamá-lo de Clóvis – afinal, ninguém, no mundo, se chama Clóvis.

Clóvis: eu não posso ajudá-lo. É típico de todo primeiro relacionamento nos atirarmos de cabeça, fazer merda, ouvir conselhos de quem sabe o que diz e não segui-los, porquê acreditamos fielmente que conosco será diferente. Portanto, como você não ouve meus conselhos, resolvi escrever um poema para incentivar sua felicidade. Espero que você goste.

Se o Clóvis soubesse,

Que era besteira,

Entregar aquela carta,

Era a mais pura besteira,

Que ela,

Já não queria nada,

Se o Clóvis soubesse,

De tudo isso que não sabia,

Será que ele faria?

Que o amor que ele sentia,

Não! Ela não correspondia,

Será que ele conseguiria?

Guardar no peito,

Não deixar pular,

Pra fora do leito,

Nem brinca com isso:

“Vai, Clóvis! Se ferra que não tem mais jeito!”

Cinema

Anibaldo sempre foi um rapaz alegre, divertido. Fazia sucesso com as mulheres e gostava não só de estar presente nas festas e reuniões com os amigos, como também sabia tirar proveito de cada tipo de situação. O que ninguém sabia, no entanto, é que ele sofria de um mal: filmes de terror.

Anibaldo não conseguia assistir a este tipo de filme. Acreditava em espíritos e morria de medo deles. Tinha medo até de escovar os dentes, pois “nunca se sabe se alguém irá aparecer atrás de mim quando eu fechar o espelho”. E, no meio de tanto pavor, acabou por conhecer Cléa, a menina mais bonita da escola.

Combinaram de sair e foram ao cinema. O problema é que os ingressos para a comédia romântica que ela tanto queria assistir já estavam esgotados. O filme de super-heróis? Só os assentos de frente ao telão estão disponíveis, senhor. Sobrou o filme de terror. “Bom, já que viemos até aqui, vamos assistir esse de espíritos, mesmo”, disse Cléa, enquanto Anibaldo tirava um terço do bolso.

Compraram três ingressos: um para ela, um para ele e outro para o cagaço que Anibaldo estaria prestes a sentir. Sentaram-se na última fileira. Os trailers passaram rápido. O filme começa.

– Nossa, eu tô todo cagado. – diz Anibaldo.

– O quê?

– Eu tô todo excitado! Esse filme! Nossa, parece ótimo…

– Ah, sim. Eu tinha entendido outra coisa.

– É porque você está amaldiçoada.

– O quê!?

– Você é abençoada! Meu Deus, que alegria. Dá até menos medo de assistir esse filme com você do meu lado!

– Você está com medo do filme, Aní? – ela o chamava de “Aní”. – Porque não tem problema nenhum se você estiver…

– Medo? Que isso. Eu tô tranquilíssimo. É só essa…

Uma cena surpreende Anibaldo, que não se aguenta:

– Puta que pariu! Quequié isso, minha gente? Vamos embora.

– Aní, você tem certeza que está tudo bem? As pessoas estão olhando…

– Elas não são pessoas. São mensageiros do mal.

– Aní, já chega! Você está surtando! É o nosso primeiro encontro e você está me fazendo passar vergonha. Por favor, você pode se comportar e assistir o filme até o final?

– Tudo bem. Mas tem um preço.

– E qual é o preço, Aní?

– Eu não vou conseguir dormir sozinho à noite…

Táxi

Fala, mestrinho! Vai pra onde? Pra Lapa? Então pode entrar no carro que daqui pra Lapa são só cinco minutinhos. Como está essa força, meu amigo? Que belo nariz você tem, hein? Meus parabéns. Qual é o seu nome? Muito prazer, Fábio. O meu nome é Josias, e no meu táxi quem manda é o cliente. Você pode escolher a rádio que quiser ouvir. Mas você só têm três opções: Alfa, Antena Um e Nova Brasil – que, por sinal, são minhas rádios favoritas. Qual você prefere? Brincadeira. Pode ficar à vontade e escolher a rádio que quiser. Iremos escutar aquilo que seus ouvidos mandarem. Gosto de deixar meus passageiros à vontade. Você está à vontade? Quer um abraço? Às vezes, sinto saudades da minha mãe. Você é de São Paulo? Que legal. Eu não sou daqui. Mas conheço tudo por aqui, inclusive um homem chamado Cléber que adora sequestrar jovens paulistanos inocentes. Você é inocente e não sabe aonde está? Jura? Perfeito, pois Cléber já está no banco de trás e pronto para deixar sua noite ainda mais alegre. Vamos começar a brincadeira? Cléber, pode vir. É mentira. Cléber não existe. É tudo uma grande sacanagem. Eu só quero te deixar à vontade. Agora você está mais tranquilo? São Paulo tem o poder de melhorar o nosso humor, menos o trânsito. Pelo amor de Deus, que trânsito é esse? Vinte anos de profissão e ainda não me acostumei com essa cidade. Aliás, também não me acostumei com o tamanho do seu nariz. Que bela napa, hein? Meus parabéns. Você gosta de mulher? Se preferir homens, não tem problema. Uma vez, no colégio, beijei um amigo chamado Railander, mas depois me arrependi. Achei que meus pais não aprovariam minha atitude. Você aprovaria? Quer me beijar só pra ver como é que é? Bom, acho que vai ficar pra depois. Já estamos na Lapa. Deu 25 reais a corrida. Muito obrigado pela conversa. Foi um prazer te conhecer. Espero não ter incomodado. Eu incomodei? Não? Então está tudo ótimo. Só espero que da próxima vez você consiga trocar de rádio. Anota aí o meu telefone. Se precisar de alguma carona é só me ligar. Ou se quiser conhecer o Railander é só me ligar também. Tenha uma boa noite. Ah, e já ia me esquecendo: já te disseram que você tem um belo nariz? Meus parabéns.

Motel

– Alô, Ricardo!?

– Fala, Marcelão! Tudo tranquilo, meu brother?

– Preciso te contar uma coisa urgente.

– Pode falar, meu camarada.

– Eu bebi demais na noite passada.

– Esse é o meu garoto! Do jeitinho que eu ensinei!

– E estou no motel neste exato momento.

– Mas você é um piranhudo mesmo, hein, Marcelão! Sempre marcando gol. Quem foi a vítima da vez?

– Eu fui a vítima, Ricardo.

– É dessas que eu gosto, Marcelão! Das fogosas! Ela te pegou de jeito, não foi?

– Não, Ricardo. Você não está entendendo.

– O quê eu não estou entendendo? Ela não era fogosa?

– Tem um cara deitado ao meu lado.

– Puta que me pariu, Marcelão! Puta que me pariu!

– Tem um cara grande, forte e nu, com um chapéu de cowboy, deitado ao meu lado, Ricardo!

– Pelo amor de Deus, Marcelão! Pelo amor de Deus!

– Eu preciso da sua ajuda, Ricardo!

– Qual motel você está?

– Aquele perto do centro.

– Me dá vinte minutinhos que eu já tô aí.

– Vinte minutinhos? Em vinte minutinhos ele já vai estar acordado e eu vou ser a janta, Ricardo!

– Então espera eu chegar que eu quero a sobremesa, Marcelão!

A múmia

É realmente maravilhoso estar apaixonado. Você sorri mais, principalmente quando se está ao lado da sua paixão. Você se torna uma pessoa mais viva, mais otimista, mais pra frente. Em geral, a vida se torna um lugar mais bonito, exceto quando o cupido faz questão de fazer você se apaixonar por uma múmia.

Veja bem: não estou dizendo que estou apaixonado por alguém enterrado em uma tumba há mais de dez mil anos, mas a analogia é válida, pois estou apaixonado por uma mulher inexpressiva. Ela não sabe da minha existência, o que torna nossa relação (que relação?) ainda mais complicada. Penso em falar com ela. Penso em ser cara de pau, colocar tudo em risco, não procurar as palavras perfeitas e simplesmente me preocupar em expressar aquilo que sinto. Entretanto, todo este planejamento vai por água abaixo quando me deparo com sua feição feliz, triste, mórbida, frígida, excepcionalmente fora de qualquer padrão de beleza. O quê diabos eu vi nessa menina?

De qualquer maneira, fiz uma declaração daquelas que exigem a nossa coragem para fazer. Entreguei um papel amassado com uma declaração escrita à lápis. Fui até ela tremendo de medo, como se estivesse indo bater um pênalti na final da Copa do Mundo, mas na verdade estava declamando Shakespeare para uma múmia egípcia. Não faço a menor ideia do que ela achou do texto, da minha atitude, ou da minha letra. Eu espero que ela goste. Ou então sofrerei as consequências do faraó.

Para as mulheres

Caros leitores,

Faz tanto tempo que eu prometi para mim mesmo que escreveria algo no Dia das Mulheres que eu nem sei mais o quê eu ia contar para as mulheres, então, por conta da minha péssima memória, eu irei contar para vocês como eu perdi o meu B.V.

O B.V, para quem não sabe, é uma sigla que abrevia a expressão “boca virgem”, utilizada para classificar pessoas que nunca beijaram a boca de outras pessoas. E, por incrível que pareça, eu perdi o meu B.V aos 8 anos de idade (ou 7, não sei, minha memória é ruim) com uma menina chamada Giovana.

Giovana era loira de olhos azuis. Até hoje esta combinação é sinônimo de perfeição, então você pode imaginar como era quando eu tinha 6 anos (ou 5, não me lembro ao certo). Eu era apaixonado por ela, e usava a estratégia do “me beija, pelo amor de Deus” para tentar conseguir alguma coisa – até o dia em que funcionou, na base da insistência.

Nos beijamos apenas uma vez e, dentro da minha cabeça, Giovana e eu estávamos namorando. E eu estava tão feliz com o nosso namoro que contei para ela sobre o meu maior sonho na época: o de ser bombeiro.

Os bombeiros, para mim, eram como super-heróis. Eles apagavam incêndios, não tinham medo do fogo e ainda salvavam vidas. Era tudo o que eu queria ser. E, com Giovana ao meu lado, me sentia ainda mais confiante do meu sonho. De alguma forma, ela me inspirava a querer me tornar o melhor bombeiro da cidade, ainda que eu tivesse apenas 5 anos (ou 6, eu não sei, já não lembro mais).

Entretanto, mesmo após jurar protegê-la do fogo pelo resto da sua vida, Giovana e eu não demos certo. Talvez ela fosse do tipo que preferia pegar fogo, e o nosso namoro durou apenas um dia. Mas eu não fiquei triste. Embora eu jamais tenha realizado o meu sonho de ser bombeiro, conheci uma menina que me fez querer ser alguém melhor. E essa menina não era um sonho: era real. Ela podia me olhar nos olhos e com esta simples atitude já me fazer querer construir um mundo ao redor dela, mesmo sem ter consciência de que era ela quem me impulsionava a melhorar.

Ouvi dizer que devemos ficar de olho nos poetas, pois são eles que mudam o mundo. E eu digo o contrário: são vocês, mulheres, que mudam o mundo. Nós apenas nos inspiramos em vocês.

O Havaí

Doutor, muito obrigado por me receber aqui em sua clínica. Tive uma ótima recepção assim que passei pela porta de entrada. Suas recepcionistas são extremamente simpáticas e o cafezinho estava ótimo, mas não escolhi sua clínica por conta do café. Escolhi ser atendido pelo senhor porque reconheço que esta é a melhor clínica de psicologia do país e necessito de um tratamento especial. Acontece que não consigo mais escrever, doutor. E isso é um problema, pois sou escritor. Sou um escritor que não escreve. Não consigo mais encontrar um brilho naquilo que faço – ou que pelo menos fazia. Algo certamente saiu do trilho e não importa o quanto eu olhe para trás, não consigo enxergar o que foi. A seca de inspiração abriu espaço para um enorme desespero, que se transformou rapidamente em depressão. Minha vida virou de cabeça para baixo e escrever um simples e-mail já se tornou tarefa dura. Quando estou inspirado, consigo escrever em um guardanapo. A coisa está feia, doutor. E preciso da sua ajuda, ou então não terei dinheiro sequer para pagar a nossa próxima sessão.

– Você já viajou para o Havaí? – pergunta o doutor.

– O quê?

– O Havaí. Você não conhece? É um arquipélago, lugar bonito. Fica lá nos Estados Unidos…

– Doutor, eu sei onde fica o Havaí. O que eu não sei é a conexão entre o Havaí e o meu problema. Ou com qualquer coisa.

– Ouvi dizer que é um lugar muito bonito nesta época do ano…

– Doutor, acho que você não está me ouvindo aqui. Eu estou desesperado. Não consigo mais fazer aquilo que faço de melhor. Faz meses que não escrevo. Estou sem dinheiro, meu casamento entrou em crise, tive que vender meu carro para pagar as contas. Preciso encontrar uma solução para o meu problema. Você tem ideia do que pode ter gerado esta crise de criatividade dentro de mim?

– Os polinésios.

– O quê?

– Foram os polinésios.

– Os polinésios roubaram a minha criatividade?

– Foram os polinésios que descobriram o Havaí. Eles estiveram lá muito tempo antes dos europeus, ao contrário do que…

O escritor se atira por cima da mesa para agarrar a garganta do psicólogo. É verdade que o psicólogo testou a paciência do escritor, que já se dizia desesperado com seu problema, mas tentar esgoelar o psicólogo dentro de sua própria clínica era demais. Talvez o escritor só precisasse relaxar um pouco. Ou quem sabe viajar para o Havaí, que, por sinal, dizem que é um lugar muito bonito nesta época do ano…